Por Alexandre Ceconello Marinho • 26 de setembro de 2026
No primeiro artigo desta série, discutimos que classificar e compreender não são exatamente a mesma coisa. Uma categoria diagnóstica pode fornecer informações importantes sobre aquilo que alguém vive sem, necessariamente, explicar como essa experiência se organiza na singularidade de uma pessoa.
Mas essa distinção pode ser aprofundada. Afinal, quando falamos em diagnóstico em saúde mental, estamos falando sempre da mesma operação?
Não necessariamente.
Existem diferentes maneiras de organizar e produzir conhecimento sobre fenômenos relacionados à saúde mental. Entre elas, podemos distinguir, de maneira didática, perspectivas categoriais ou classificatórias, perspectivas dimensionais e perspectivas voltadas à formulação compreensiva da experiência.
Essas formas de produzir conhecimento não precisam ser tratadas como alternativas absolutamente incompatíveis. Elas partem, em geral, de perspectivas diferentes e, por isso, destacam aspectos também diferentes daquilo que buscamos conhecer.
O diagnóstico categorial é provavelmente a forma mais conhecida de diagnóstico em saúde mental. Sua lógica básica consiste em identificar um conjunto de manifestações, compará-las com critérios previamente estabelecidos e verificar se há correspondência suficiente para atribuir determinada categoria diagnóstica (Matos et al., 2005).
Essas categorias e seus respectivos critérios constam em manuais médicos e psiquiátricos, como a Classificação Internacional de Doenças, também conhecida como CID, e o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, que corresponde à sigla DSM.
É dessa maneira que podemos dizer, por exemplo, que pessoas com histórias bastante diferentes apresentam manifestações que permitem reuni-las sob uma mesma denominação, como "depressão", "síndrome do pânico", "autismo", "TDAH", etc.
A classificação depende, portanto, da possibilidade de reconhecer regularidades entre diferentes pessoas. Para construir uma categoria, é necessário deixar provisoriamente em segundo plano parte daquilo que diferencia cada sujeito e destacar aquilo que diferentes casos possuem em comum.
Essa operação possui utilidades importantes. As categorias facilitam a comunicação, permitem a comparação de informações, favorecem determinadas formas de pesquisa e ajudam a organizar conhecimentos acumulados sobre conjuntos de manifestações clínicas.
Entretanto, a própria literatura sobre diagnóstico mostra que transformar fenômenos psicológicos complexos em categorias delimitadas envolve dificuldades. Os limites entre determinadas condições nem sempre são evidentes, diferentes diagnósticos psiquiátricos podem compartilhar manifestações semelhantes e pessoas classificadas dentro da mesma categoria podem apresentar diferenças significativas entre si (Matos et al., 2005; Widiger & Samuel, 2005; Haslam, 2003).
Isso não torna a classificação necessariamente inválida. Indica apenas que uma categoria é uma forma de organizar a realidade, e não a reprodução integral dessa realidade.
Nesse sentido, o problema surge quando ocorre uma "redução do psicopatológico ao nosológico" (Pereira, 2014, p. 1035), ou seja, quando se substitui a investigação das diferentes dimensões do sofrimento humano por uma classificação das condições psicológicas, como se esta pudesse, por si só, dar conta da complexidade da experiência.
Portanto, aquilo que uma categoria permite conhecer pode ser legítimo sem que, por isso, corresponda a tudo aquilo que existe para ser conhecido sobre uma pessoa.
Há outra maneira de organizar fenômenos considerados psicopatológicos. Em vez de perguntar apenas se determinada condição está ou não presente, uma perspectiva dimensional procura observar em que intensidade, frequência ou extensão determinadas características aparecem.
A diferença pode parecer pequena, mas modifica a pergunta diagnóstica.
Em uma lógica estritamente categorial, há uma fronteira: determinados critérios permitem classificar alguém dentro ou fora de uma categoria (transtorno, síndrome, espectro). Em uma perspectiva dimensional, admite-se que muitas características psicológicas podem variar ao longo de continuidades.
Essa perspectiva permite, por exemplo, não reduzir a investigação à pergunta “tem ou não tem?”, mas perguntar como determinada característica se apresenta, em que intensidade e com quais repercussões (Haslam, 2003; Kraemer et al., 2004).
No entanto, há uma distinção importante: tornar um diagnóstico dimensional não o transforma automaticamente em um diagnóstico compreensivo.
Categorias e dimensões são maneiras distintas de classificar e organizar fenômenos. Ambas podem continuar concentradas na descrição daquilo que aparece, sem necessariamente investigar como aquela experiência se constituiu e que sentido assume na vida de uma pessoa.
É justamente nesse ponto que podemos introduzir uma outra operação clínica.
Em uma perspectiva compreensiva, a pergunta deixa de ser apenas “a qual categoria isso corresponde?” ou “em que intensidade isso aparece?” e passa a incluir: “como podemos compreender aquilo que está acontecendo com esta pessoa?”
Esse deslocamento modifica o lugar atribuído à história, aos vínculos, aos conflitos, às condições de vida e à própria experiência daquele que procura atendimento.
Suponhamos, por exemplo, duas pessoas que apresentem manifestações suficientemente semelhantes para receberem uma mesma classificação relacionada à ansiedade.
Do ponto de vista categorial, aquilo que interessa inicialmente são os aspectos que permitem reuni-las sob uma mesma categoria. Uma avaliação dimensional poderia acrescentar informações sobre intensidade e gravidade dessas manifestações.
Mas isso ainda não nos informa necessariamente se, para uma dessas pessoas, a ansiedade se organiza em torno do medo de perder relações importantes; se, para outra, aparece associada a exigências constantes de desempenho; se uma delas viveu acontecimentos que alteraram profundamente sua sensação de segurança; ou ainda quais conflitos, relações e condições concretas participam da forma singular como aquele sofrimento é experimentado.
É nesse nível que a formulação clínica procura construir relações entre informações que, isoladamente, poderiam permanecer apenas como uma lista de sintomas.
Para Bleger (1958, 2002), a compreensão clínica não se limita à aplicação de conhecimentos previamente estabelecidos sobre as manifestações do sujeito, mas se dá no acontecer humano concreto, articulando a história do sujeito, sua situação atual e as relações estabelecidas no encontro clínico. Trata-se, portanto, de uma construção progressiva, na qual observação, compreensão e intervenção se relacionam continuamente, permitindo que as hipóteses formuladas sejam revistas e aprofundadas ao longo do processo (Bleger, 1999).
É nessa articulação que podemos situar um diagnóstico compreensivo: o que cada um é capaz de reconhecer sobre aquilo que busca compreender, em determinado tempo e espaço, construído na interlocução entre os conhecimentos do profissional e a experiência daquele que procura atendimento. O diagnóstico produzido é sempre provisório e aberto, podendo ser modificado à medida que o processo clínico avança.
Essa posição também evita uma falsa separação entre indivíduo e contexto. Para Bleger (1995), a conduta não corresponde simplesmente à exteriorização de propriedades internas do sujeito nem a uma reação mecânica a estímulos externos; ela emerge de um campo no qual sujeito e meio participam de uma mesma estrutura.
É justamente nessa articulação que situo uma perspectiva psicossocial de base psicanalítica: compreender a singularidade sem tratá-la como uma realidade isolada das relações e condições em que se constitui (Marinho, 2026).
Muda, sobretudo, o tipo de pergunta que orienta o trabalho.
Uma pessoa pode chegar à psicoterapia com um diagnóstico previamente estabelecido. Essa informação pode ser importante e não precisa ser descartada. Mas ela pode ser colocada em relação com outras dimensões da experiência.
Em vez de perguntar apenas quais sintomas confirmam determinada categoria, podemos investigar como eles aparecem, em quais situações, com que relações se articulam, o que os antecedeu, que conflitos expressam, como foram se transformando ao longo da vida e que sentidos a própria pessoa consegue produzir sobre aquilo que vive.
Como vimos, a compreensão construída dessa maneira não é necessariamente definitiva. Ela se modifica conforme o processo avança, novas associações surgem, relações se tornam mais inteligíveis e hipóteses inicialmente formuladas precisam ser revistas.
Nesse sentido, uma perspectiva compreensiva não significa simplesmente substituir um nome diagnóstico por uma explicação psicológica diferente. Significa manter a compreensão aberta à experiência.
Um diagnóstico classificatório pode dizer com o que determinada experiência se parece. Uma avaliação dimensional pode ajudar a reconhecer quanto determinadas características se manifestam. Uma compreensão clínica procura também perguntar como aquilo se constituiu e o que significa na vida daquela pessoa.
Talvez seja justamente nessa terceira pergunta que a psicoterapia encontre uma de suas contribuições mais próprias.
Bleger, J. (1995). Psicología de la conducta (14ª reimpr.). Paidós.
Bleger, J. (1999). Psicohigiene y psicología institucional (9ª reimpr.). Paidós. (Obra original publicada em 1966).
Bleger, J. (2002). Temas de psicología: Entrevista y grupos. Nueva Visión.
Bleger, J. (1958). Psicoanálisis y dialéctica materialista: Estudios sobre la estructura del psicoanálisis. Paidós.
Gomes de Matos, E., Gomes de Matos, T. M., & Gomes de Matos, G. M. (2005). A importância e as limitações do uso do DSM-IV na prática clínica. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 27(3), 312–318. https://doi.org/10.1590/S0101-81082005000300010
Haslam, N. (2003). Categorical versus dimensional models of mental disorder: The taxometric evidence. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, 37(6), 696–704. https://doi.org/10.1080/j.1440-1614.2003.01258.x
Kraemer, H. C., Noda, A., & O’Hara, R. (2004). Categorical versus dimensional approaches to diagnosis: Methodological challenges. Journal of Psychiatric Research, 38(1), 17–25. https://doi.org/10.1016/S0022-3956(03)00097-9
Marinho, A. C. (2026). Saúde mental e desigualdade social: Um estudo sobre o pensar e o fazer de psicólogas que trabalham no SUS e no SUAS [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.47.2026.tde-20082026-060519
Pereira, M. E. C. (2014). A crise da psiquiatria centrada no diagnóstico e o futuro da clínica psiquiátrica: Psicopatologia, antropologia médica e o sujeito da psicanálise. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 24(4), 1035–1052. https://doi.org/10.1590/S0103-73312014000400004
Widiger, T. A., & Samuel, D. B. (2005). Diagnostic categories or dimensions? A question for the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders—fifth edition. Journal of Abnormal Psychology, 114(4), 494–504. https://doi.org/10.1037/0021-843X.114.4.494