Por Alexandre Ceconello Marinho • 06 de novembro de 2026
Quando alguém procura psicoterapia, geralmente o faz porque está vivenciando algum tipo de sofrimento, conflito ou dificuldade que não consegue compreender ou enfrentar satisfatoriamente. Às vezes, esse sofrimento já recebeu um diagnóstico; outras vezes, apresenta-se como uma angústia, uma insatisfação, um problema nos relacionamentos ou uma sensação de que algo não vai bem.
Existem diferentes maneiras de compreender e trabalhar essas experiências. Cada abordagem psicológica parte de determinadas concepções sobre o ser humano, sua constituição e, consequentemente, seu sofrimento e suas possibilidades de transformação.
A psicoterapia em perspectiva psicossocial de base psicanalítica parte, inicialmente, da compreensão de que a experiência humana é singular, mas não se constitui isoladamente. Ou seja: aquilo que sentimos, pensamos e fazemos está relacionado à nossa história de vida, o que inclui a história da nossa família, do lugar onde estamos inseridos e da cultura que partilhamos, bem como dos vínculos que fazemos e das condições concretas nas quais vivemos. Sim, é complexo!
Essa perspectiva encontra seus principais fundamentos, em meu trabalho clínico, na obra do psicólogo e psicanalista argentino José Bleger (1922–1972), que procurou articular psicanálise, psicologia social e uma compreensão dialética da experiência humana.
Vamos, então, explorar mais alguns pressupostos básicos.
Uma contribuição fundamental de Bleger (1995) está em sua crítica à concepção do ser humano como um indivíduo abstrato, cuja vida psicológica poderia ser compreendida independentemente das relações e condições em que se constitui. Ele questiona a separação entre indivíduo e sociedade, afirmando que “a psicologia é sempre social” (Bleger, 1995, p. 55, tradução nossa).
Essa afirmação não significa que todas as pessoas sejam iguais ou que suas experiências possam ser explicadas exclusivamente pelas condições sociais. Ao contrário, pressupõe reconhecer que cada sujeito constrói uma forma singular de viver e responder às relações das quais participa. E essa singularidade só pode se produzir e ser reconhecida em um contexto social.
Para compreender essa articulação, Bleger (1995) amplia o conceito de conduta, entendido não apenas como comportamento observável, mas como a totalidade das manifestações humanas, expressas no pensamento, no corpo e nas ações sobre o mundo.
Essas manifestações não constituem fenômenos isolados, como tenho insistido. São diferentes expressões de uma mesma conduta, que se produz em determinada situação.
Por isso, não basta investigar o que uma pessoa sente ou faz; é necessário compreender também em que condições, relações e circunstâncias essa experiência se constitui: Como são a família, a escola e os outros grupos em que a conduta se expressa? Quais os valores compartilhados entre esses grupos? Quais as condições de trabalho? Como funciona o casamento ou o namoro? O que mudou ao longo do tempo no sujeito e no mundo que o circunda? São muitas as questões possíveis para ampliar o fenômeno.
Na perspectiva de Bleger (1995), a esse conjunto de relações e condições que participam de determinada situação em que se desenvolve a conduta ele atribiu o conceito de campo.
E, ao desenvolver essa concepção, Bleger (1995, 1999) distingue diferentes âmbitos de investigação: o psicossocial, relacionado ao sujeito e seus vínculos; o sociodinâmico, que toma os grupos como unidade de análise; o institucional, relacionado às instituições e às relações entre grupos; e o comunitário, que amplia a investigação para processos coletivos mais abrangentes.
Esses âmbitos não são independentes. Correspondem a diferentes possibilidades de investigar uma mesma realidade.
Isso significa que, mesmo em uma psicoterapia individual, podemos considerar as relações familiares, afetivas e profissionais, os grupos de pertencimento, as instituições e as condições sociais que atravessam a experiência do sujeito.
Pensemos, por exemplo, em alguém que procura atendimento por apresentar ansiedade intensa e dificuldades relacionadas ao trabalho.
Podemos investigar seus sentimentos, conflitos e maneiras particulares de responder às exigências profissionais. Entretanto, também precisamos considerar como o trabalho está organizado, quais expectativas recaem sobre essa pessoa (da empresa, da família, de si mesma), que relações estabelece naquele ambiente e quais condições concretas participam de seu sofrimento.
Não se trata de procurar uma causa exclusivamente interna ou externa. A questão é compreender como essas diferentes dimensões se articulam na produção de uma experiência singular.
É nesse sentido que a perspectiva psicossocial não representa simplesmente acrescentar fatores sociais a uma explicação psicológica. Ela pressupõe compreender o próprio sujeito como constituído nas relações que estabelece com o mundo.
Uma das contribuições fundamentais da Psicanálise está na possibilidade de investigar dimensões da experiência humana que não se encontram inteiramente disponíveis à consciência, como conflitos, fantasias, defesas e formas de vinculação que participam da constituição da subjetividade.
Nessa perspectiva, Bleger (1958) retoma a noção de dramática, compreendendo os fenômenos psicológicos como acontecimentos humanos concretos, constituídos em um campo de situações e relações, e não como manifestações de mecanismos internos isolados. É uma compreensão que nos leva investigar como experiências anteriores participam dos conflitos e das relações vividas no presente.
Ao trabalhar com os conceitos de simbiose e ambiguidade, Bleger (1978) aprofunda a compreensão de formas de organização psíquica constituídas nas relações com os outros. O autor explica que determinadas experiências de dependência e indiferenciação podem envolver aspectos da personalidade ainda não suficientemente integrados, que nem sempre são reconhecidos pelo próprio sujeito, como conflitos ou contradições.
Assim, o trabalho psicanalítico não se limita à identificação de conteúdos inconscientes ou à recuperação de acontecimentos do passado. Interessa compreender como conflitos, formas de vinculação e modos de organização psíquica se constituem e se atualizam nas relações presentes, inclusive no próprio encontro terapêutico, possibilitando sua investigação e elaboração ao longo do processo (Bleger, 1958, 1978).
Na psicoterapia, a fala constitui um dos principais meios pelos quais a pessoa apresenta suas experiências, seus conflitos e suas questões.
Entretanto, como temos explicado, escutar não significa apenas recolher informações ou identificar sintomas. Bleger (2002) destaca que o processo clínico envolve formular hipóteses, verificá-las, problematizá-las e retificá-las à medida que novos elementos aparecem. Portanto, a compreensão não chega pronta, tampouco se encerra nos primeiros atendimentos.
Essa característica é importante porque o conhecimento clínico não se produz apenas sobre o sujeito, mas também na relação com ele.
O profissional participa desse processo com seus conhecimentos teóricos, sua formação e sua experiência. A pessoa, por sua vez, participa com aquilo que vive, conhece, desconhece, recorda, associa e consegue elaborar sobre si.
Isso não significa que ambos ocupem posições equivalentes, nem que o psicoterapeuta apenas acompanhe passivamente o relato. Sua função envolve escutar, investigar, formular hipóteses e realizar intervenções que contribuam para ampliar a compreensão da experiência.
Outra contribuição importante da Psicanálise está no reconhecimento de que determinadas formas de relação podem se atualizar no próprio encontro entre paciente e psicoterapeuta.
Bleger (2002) discute esses fenômenos retomando os conceitos de transferência e contratransferência introduzidos por Freud.
A transferência está relacionada à atualização de sentimentos, expectativas e modos de relação anteriormente constituídos, que podem aparecer na maneira como o sujeito se relaciona com o profissional. A contratransferência envolve as respostas produzidas no terapeuta nesse campo relacional, exigindo observação e elaboração técnica.
Isso permite compreender que a relação terapêutica não constitui apenas um meio para conversar sobre acontecimentos externos. Ela também pode oferecer elementos para investigar como determinados vínculos, conflitos e formas de relação se manifestam no presente.
Bleger (1978) aprofunda essa discussão ao tratar das formas primitivas de vinculação, dependência e aspectos pouco diferenciados da experiência psíquica. Nesse contexto, também atribui importância ao enquadre terapêutico: o conjunto de condições relativamente estáveis que organiza o processo clínico, como os papéis, os horários e os limites da relação profissional.
O enquadre não constitui apenas uma formalidade. Sua estabilidade oferece condições para que experiências e conflitos possam emergir, ser observados e trabalhados ao longo do tratamento.
Portanto, uma psicoterapia psicossocial de base psicanalítica não se organiza a partir de um conjunto de respostas previamente estabelecidas sobre como alguém deve pensar, sentir ou agir.
Isso não significa que o trabalho seja desprovido de direção. Sua orientação está na construção de condições para que o sujeito possa reconhecer conflitos, elaborar experiências, compreender suas relações e produzir novas possibilidades de posicionamento diante da própria vida.
Além disso, o trabalho psicoterapêutico se baseia em uma concepção de cuidado que não se restringe à eliminação de sintomas, mas considera as possibilidades de desenvolvimento e transformação da experiência humana. Nesse sentido, o trabalho psicoterapêutico pode envolver o sofrimento e o adoecimento, mas não precisa ficar limitado a eles.
Também não pressupõe desconsiderar diagnósticos psiquiátricos ou tratamentos médicos eventualmente necessários. Esses conhecimentos e intervenções podem participar do cuidado, respeitando suas finalidades e competências específicas.
O que distingue essa perspectiva é a compreensão de que nenhum diagnóstico, sintoma ou explicação previamente estabelecida é suficiente para encerrar o conhecimento sobre aquilo que alguém vive ou determinar o tratamento.
A psicoterapia constitui, assim, um processo de investigação e elaboração no qual a pessoa pode construir uma compreensão mais ampla sobre sua história, seus vínculos, seus conflitos e as condições em que sua experiência se produz.
Mais do que simplesmente encontrar explicações para o sofrimento, interessa que essa compreensão possa contribuir na construção de outras maneiras de viver e de se relacionar consigo e com o mundo.
Bleger, J. (1958). Psicoanálisis y dialéctica materialista: Estudios sobre la estructura del psicoanálisis. Paidós.
Bleger, J. (1978). Simbiosis y ambigüedad: Estudio psicoanalítico (4ª ed.). Paidós.
Bleger, J. (1995). Psicología de la conducta (14ª reimpr.). Paidós.
Bleger, J. (1999). Psicohigiene y psicología institucional (9ª reimpr.). Paidós.
Bleger, J. (2002). Temas de psicología: Entrevista y grupos (30ª reimpr.). Nueva Visión.
Marinho, A. C. (2026). Saúde mental e desigualdade social: Um estudo sobre o pensar e o fazer de psicólogas que trabalham no SUS e no SUAS [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.47.2026.tde-20082026-060519