Por Alexandre Ceconello Marinho • 20 de setembro de 2026
Quando se fala em diagnóstico no campo da saúde mental, é comum que termos apareçam quase imediatamente: depressão, ansiedade, TDAH, transtorno bipolar, autismo, transtorno de personalidade borderline, entre tantos outros. Há muito tempo que esses termos já não circulam apenas entre profissionais ou em serviços de saúde. Eles aparecem nas redes sociais, nos meios de comunicação, nas conversas cotidianas e, cada vez mais, nas formas pelas quais as pessoas procuram compreender aquilo que sentem, vivem e experimentam.
Em determinadas situações, um diagnóstico biomédico, baseado em manuais médico-psiquiátricos como a CID-10 e o DSM, pode contribuir para organizar experiências antes difíceis de nomear, orientar outras investigações e tratamentos e favorecer a comunicação entre profissionais. O problema começa quando a própria ideia de diagnóstico passa a ser confundida exclusivamente com a identificação de uma categoria previamente estabelecida. Nesse caso, diagnosticar é reduzido à seguinte pergunta: “qual síndrome ou transtorno mental esta pessoa tem?”
Mas essa não é a única pergunta possível. Aliás, mais do que isso, não deve ser a única pergunta possível.
Antes dela, talvez seja necessário formular outra: o que fazemos quando diagnosticamos?
Em sentido amplo, diagnosticar implica conhecer, distinguir, relacionar informações e produzir alguma compreensão sobre um fenômeno (Jutel, 2009; Pereira, 2014). No campo da saúde mental, isso significa que todo diagnóstico pressupõe, de algum modo, uma forma de olhar para aquilo que alguém vive.
Essa observação é importante porque o profissional não entra em contato com uma experiência humana a partir de um lugar completamente neutro ou vazio de referências. Aquilo que observamos, as perguntas que formulamos e as relações que estabelecemos entre diferentes elementos são atravessados pelos conhecimentos, conceitos e referenciais teóricos que utilizamos.
Bleger (1958), ao discutir os esquemas referenciais empregados na Psicologia e na Psicanálise, chama a atenção justamente para o fato de que a forma pela qual uma realidade é apreendida e expressa está relacionada aos referenciais conceituais a partir dos quais ela é observada.
Isso não significa afirmar que toda interpretação seja igualmente válida ou que a realidade dependa apenas do olhar de quem observa. Significa reconhecer que conhecer também é selecionar informações, organizar, comparar e estabelecer relações.
Por exemplo: diante de alguém que relata dificuldade de concentração e perda de interesse por atividades antes prazerosas, podemos simplesmente perguntar se essas manifestações correspondem aos critérios de determinada categoria diagnóstica. Podemos, inclusive, investigar sua intensidade, duração e frequência. Mas também podemos perguntar quando começaram, o que estava acontecendo naquele período, como essa pessoa tem vivido suas relações, que mudanças atravessaram sua vida e que sentidos ela atribui ao que está experimentando.
São perguntas diferentes e, justamente por isso, produzem conhecimentos diferentes.
Uma das formas mais conhecidas de diagnóstico em saúde mental é aquela baseada em categorias previamente estabelecidas. Nessa lógica, procura-se identificar se determinado conjunto de manifestações (compreendidas como sintomas) corresponde aos critérios definidos para uma condição clínica específica (uma patologia representada por uma categoria diagnóstica pré-estabelecida).
Esse modo de diagnosticar depende do reconhecimento de regularidades. Para que diferentes pessoas possam receber a mesma classificação, é necessário identificar elementos que elas apresentam em comum.
Esse tipo de conhecimento pode ser importante. Ele permite comparar casos, estabelecer critérios de intervenção, contribuir com outras investigações e construir alguma linguagem compartilhada entre profissionais. No entanto, reconhecer aquilo que diferentes experiências possuem em comum não é exatamente o mesmo que compreender como determinada experiência se organiza na vida singular de uma pessoa.
Esse é um ponto importante na obra de Bleger (1995). Ao discutir a psicologia da conduta, o autor critica a fragmentação produzida quando diferentes correntes tomam uma parte do fenômeno psicológico como se ela correspondesse à totalidade. Para Bleger (1995), diferentes perspectivas podem captar aspectos reais do fenômeno, mas o problema aparece quando o fragmento passa a ser tomado como o todo.
Essa distinção ajuda a pensar o próprio diagnóstico.
Uma categoria pode descrever aspectos importantes da experiência de alguém sem, necessariamente, explicá-la em sua totalidade. Saber que uma pessoa apresenta características compatíveis com determinada categoria diagnóstica pode ser relevante e, ainda assim, permanecer aberta uma série de perguntas: por que esse sofrimento assumiu essa forma? Por que apareceu neste momento? Como se articula à história daquela pessoa? Que lugar ocupa em suas relações? O que ela própria entende sobre aquilo que está vivendo?
Classificar e compreender, portanto, podem dialogar, mas não são operações idênticas.
Essa diferença se torna mais evidente no encontro clínico.
Há uma diferença entre conversar com alguém apenas para obter informações previamente definidas e estabelecer uma relação na qual aquilo que a pessoa diz, a forma como organiza sua narrativa, suas associações, contradições, afetos e silêncios também participem da compreensão do que está acontecendo.
Bleger (2002) estabelece uma distinção particularmente importante entre anamnese e entrevista psicológica. Na anamnese, o objetivo principal é reunir dados previstos sobre a história e a situação de uma pessoa. Já a entrevista psicológica em uma perspectiva psicossocial não se limita a essa coleta. Para o autor, ela constitui um instrumento central do método clínico justamente porque permite investigar aquilo que ocorre no próprio campo constituído entre entrevistador e entrevistado.
Bleger (2002) afirma que “a entrevista é um instrumento fundamental do método clínico” (Bleger, 2002, p. 7, tradução nossa) e, ao mesmo tempo, uma técnica de investigação da Psicologia.
Essa formulação produz uma diferença importante.
Numa lógica estritamente classificatória, a pessoa pode ocupar sobretudo o lugar de quem fornece informações para que o profissional identifique se elas correspondem ou não a determinados critérios.
Numa perspectiva compreensiva, o conhecimento também é produzido no encontro. Parte do trabalho clínico consiste justamente em produzir condições para que determinados aspectos da experiência possam ser reconhecidos, relacionados e elaborados.
Há conhecimentos que o profissional pode oferecer a partir de sua formação e de sua experiência clínica. Mas existe também um saber que somente pode ser produzido a partir da experiência singular daquele que procura atendimento.
É na interlocução entre esses campos que uma compreensão clínica pode ser construída. Ou seja: o diagnóstico compreensivo.
Compreender alguém também implica evitar outra redução bastante frequente: imaginar que aquilo que a pessoa sente possa ser explicado exclusivamente por algo localizado “dentro” dela.
Bleger (1995) questiona explicitamente o que chama de mito do homem isolado e procura compreender a conduta humana sempre em relação a uma situação e a um campo. Nessa perspectiva, separar indivíduo e meio pode ser necessário para determinadas operações analíticas, mas não corresponde à forma concreta pela qual a experiência humana existe.
Essa questão também ocupa centralidade na perspectiva psicossocial de base psicanalítica que desenvolvo em minha tese de doutorado. Nela, procuro compreender o sofrimento psíquico sem reduzi-lo nem à interioridade individual nem às determinações sociais tomadas de maneira abstrata. Isso porque consideramos que a experiência humana é singular, mas que só pode se constituir por um processo histórico, que compreende um conjunto de relações e vínculos sociais e institucionais (Marinho, 2026).
Essa distinção é importante porque evita dois extremos. De um lado, o sofrimento pode ser individualizado de tal maneira que sua história, seus vínculos e suas condições de existência desapareçam da análise. De outro, também seria reducionista explicar aquilo que alguém vive apenas pelas condições sociais, como se a singularidade psíquica fosse irrelevante.
Uma perspectiva psicossocial de base psicanalítica procura justamente trabalhar nessa articulação.
O que alguém vive é singular, mas essa singularidade não se produz no vazio ou no determinismo biológico.
Por isso, reconhecer os limites de uma categoria diagnóstica não significa descartá-la. Pelo contrário.
Um diagnóstico pode oferecer informações relevantes. Pode ajudar a reconhecer determinados padrões, orientar outras avaliações e contribuir para a definição de cuidados. Mas ele não precisa funcionar como uma explicação definitiva sobre quem é a pessoa ou sobre tudo aquilo que ela vive.
Na psicoterapia, um diagnóstico recebido anteriormente pode ser incluído no processo de investigação sem precisar ser ignorado nem transformado na única chave possível de compreensão.
Podemos perguntar: o que esse diagnóstico ajuda a nomear? O que passou a fazer sentido depois dele? O que permanece sem explicação? Como a pessoa recebeu essa nomeação? Ela produziu alívio, reconhecimento, medo ou estigma? O diagnóstico ampliou sua capacidade de compreender a própria experiência ou passou a organizar de maneira rígida a forma como ela pensa sobre si?
Essas perguntas não anulam o diagnóstico. Elas procuram compreender também o lugar que esse diagnóstico passou a ocupar na vida do sujeito.
Nessa perspectiva, diagnosticar não significa buscar encontrar o nome correto para aquilo que alguém sente. Significa construir, ao longo do processo clínico, uma compreensão cada vez mais própria sobre aquilo que se vive.
Talvez, então, à pergunta “qual é o meu diagnóstico?”, em seu sentido classificatório, possamos acrescentar outras:
O que está acontecendo comigo? Como isso se constituiu? Que relações existem entre aquilo que sinto, minha história e minha forma de viver? O que esse diagnóstico me ajuda a compreender e o que ainda permanece por compreender?
É justamente a partir dessas perguntas que a psicoterapia pode se tornar um espaço de investigação, elaboração e produção de conhecimento sobre si.
Psicoterapia
No meu trabalho clínico, parto de uma perspectiva psicossocial de base psicanalítica, procurando compreender cada experiência em sua singularidade, sem separá-la da história, dos vínculos e das condições concretas em que ela se constitui.
Referências
Bleger, J. (1958). Psicoanálisis y dialéctica materialista: estudios sobre la estructura del psicoanálisis. Paidós.
Bleger, J. (2002). Temas de psicología: entrevista y grupos. Nueva Visión.
Bleger, J. (1995). Psicología de la conducta. Paidós.
Jutel, A. (2009). Sociology of diagnosis: A preliminary review. Sociology of Health & Illness, 31(2), 278–299. https://doi.org/10.1111/j.1467-9566.2008.01152.x
Marinho, A. C. (2026). Saúde mental e desigualdade social: um estudo sobre o pensar e o fazer de psicólogas que trabalham no SUS e no SUAS [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. Instituto de Psicologia.
Pereira, M. E. C. (2014). A crise da psiquiatria centrada no diagnóstico e o futuro da clínica psiquiátrica: Psicopatologia, antropologia médica e o sujeito da psicanálise. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 24(4), 1035–1052. https://doi.org/10.1590/S0103-73312014000400004