Por Alexandre Ceconello Marinho • 02 de outubro de 2026
Receber um diagnóstico psiquiátrico pode produzir sentimentos diferentes. Para algumas pessoas, encontrar um nome para experiências difíceis de compreender representa alívio e reconhecimento. Entretanto, esse mesmo diagnóstico pode participar de um processo pelo qual determinados comportamentos, sentimentos e dificuldades passam a ser interpretados como características permanentes do indivíduo.
Não é incomum ouvirmos expressões como "sou depressivo", "sou bipolar", "sou ansioso" ou "sou autista". Essas formas de identificação podem assumir diferentes significados, mas também revelam uma questão importante: o que acontece quando uma categoria diagnóstica passa a definir não apenas aquilo que alguém experimenta, mas quem essa pessoa acredita ser?
A identidade não é uma essência endógena, imutável ou independente das relações sociais. Ela se constitui historicamente, por meio de processos de identificação, diferenciação e reconhecimento, atravessados pelos significados que produzimos e que nos são atribuídos.
Para Stuart Hall (2017), as identidades não devem ser compreendidas como estruturas fixas, mas como construções permanentemente atravessadas pela história, pela cultura e pelas relações de poder. O autor propõe deslocar a pergunta sobre quem somos para incluir, sobretudo, "quem nós podemos nos tornar" (p. 109).
Essa reflexão é particularmente importante quando pensamos nos diagnósticos em saúde mental.
Isso porque uma categoria diagnóstica não circula socialmente apenas como uma descrição clínica restrita ao contexto médico. Ela também carrega representações e expectativas que podem interferir na maneira como alguém é percebido pelos outros e por si mesmo.
Freitas e Reuter (2021), em pesquisa sobre os efeitos do diagnóstico psiquiátrico na constituição da identidade, identificaram processos de subjetivação nos quais as pessoas passaram a reconhecer e reproduzir comportamentos coerentes com o diagnóstico recebido. A nomeação também modificou a maneira como eram percebidas e tratadas em suas relações sociais.
Portanto, o diagnóstico não apenas identifica determinadas manifestações: dependendo da maneira como é utilizado e apropriado, pode participar da produção da própria identidade.
Uma das questões mais problemáticas de determinadas leituras diagnósticas é sua tendência a localizar a origem do sofrimento exclusivamente no indivíduo, como se sentimentos, comportamentos e conflitos fossem produzidos independentemente das relações e condições concretas de existência.
Essa forma de compreensão, que podemos chamar de internalista, transforma fenômenos complexos em problemas individuais, frequentemente interpretados como déficits, disfunções ou inadequações do próprio sujeito.
A biologização constitui uma de suas expressões. Nela, determinadas manifestações passam a ser explicadas prioritariamente por supostos desequilíbrios químicos, alterações de neurotransmissores ou disfunções cerebrais, atribuindo ao funcionamento orgânico uma centralidade que pode ocultar outras dimensões do sofrimento.
É importante reconhecer que os processos psicológicos possuem dimensões biológicas e podem envolver alterações neurofisiológicas. Entretanto, reconhecer essa dimensão não significa que seja possível reduzir a experiência humana a uma causalidade predominantemente orgânica.
Há, inclusive, um limite científico importante. Embora sejam investigados numerosos marcadores biológicos associados aos transtornos mentais, ainda não existem exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmar, na prática clínica habitual, a maioria dessas categorias a partir de um déficit químico ou sináptico específico (de Jesus et al., 2023).
No caso da depressão, por exemplo, uma revisão sistemática de Moncrieff et al. (2023) não encontrou evidências consistentes que sustentem a conhecida hipótese de que ela seja causada simplesmente pela redução da atividade ou concentração de serotonina. Essa substância participa do processo, mas não pode ser identificada como determinante da depressão.
Isso não significa negar a existência da depressão, suas dimensões biológicas ou a possibilidade de benefícios dos tratamentos medicamentosos. Significa questionar a transformação de hipóteses biológicas em explicações causais definitivas, especialmente quando não existem evidências suficientes para sustentá-las.
Atribuir ao indivíduo a origem de seu sofrimento não modifica apenas sua compreensão sobre o adoecimento. Pode também alterar a maneira como ele interpreta suas próprias possibilidades de agir e transformar a realidade.
Em minha tese de doutorado, problematizo justamente os processos pelos quais sofrimentos constituídos em relações sociais, desigualdades e condições concretas de vida são reduzidos ao plano individual, como se fossem manifestações de problemas internos do sujeito (Marinho, 2026).
Coelho e Neves (2023), ao discutirem a dimensão política do diagnóstico em saúde mental, mostram como a racionalidade neoliberal favorece leituras individualizantes do sofrimento, atribuindo às pessoas a responsabilidade pelo gerenciamento de seu adoecimento, frequentemente desvinculado das contradições e condições sociais que participam de sua produção.
Essa responsabilização não precisa aparecer como uma acusação moral. Uma explicação biológica pode, inclusive, aliviar sentimentos de culpa. Entretanto, quando o sofrimento é apresentado predominantemente como consequência de um funcionamento interno, as possibilidades de compreendê-lo e enfrentá-lo tendem a se concentrar no próprio indivíduo.
Assim, situações relacionadas à sobrecarga de trabalho, à violência, à discriminação ou à precariedade das condições de vida podem ser interpretadas prioritariamente como manifestações de incapacidade individual de adaptação.
O problema não está em reconhecer características ou dificuldades próprias de uma pessoa, mas em desconsiderar que sua singularidade também é constituída pela sua história, pelas relações e condições sociais em que vive.
Esse processo pode produzir consequências importantes para a maneira como alguém constrói sua identidade.
Uma dificuldade nos relacionamentos, por exemplo, pode deixar de ser investigada em sua particularidade e passar a ser explicada imediatamente por uma categoria diagnóstica. Da mesma forma, determinadas reações emocionais podem ser interpretadas como manifestações inevitáveis de um transtorno, reduzindo a possibilidade de compreender suas relações com acontecimentos, conflitos e experiências concretas.
Signor e Santana (2020), ao investigarem crianças diagnosticadas com TDAH, identificaram como os discursos produzidos em suas relações familiares e escolares participavam da constituição de sua subjetividade, fazendo com que incorporassem determinadas percepções atribuídas pelos outros.
O diagnóstico pode, portanto, tornar-se uma referência que antecede o próprio sujeito, produzindo expectativas sobre seu comportamento e sobre aquilo que ele seria capaz de realizar.
Isso não significa que identificar-se com determinada condição seja necessariamente inadequado. O reconhecimento de uma identidade diagnóstica pode também representar pertencimento, afirmação e possibilitar acesso a direitos.
A questão crítica aparece quando essa identificação passa a operar como uma determinação sobre quem alguém é ou pode vir a ser, reduzindo suas possibilidades de reconhecer contradições, transformações e outros sentidos para sua experiência.
Na psicoterapia, a maneira como uma pessoa vive e se identifica com determinado diagnóstico pode constituir uma questão importante de investigação.
Trata-se de compreender como essa nomeação participa da maneira como o sujeito interpreta sua história, seus conflitos, suas relações e suas possibilidades de transformação.
Uma perspectiva psicossocial de base psicanalítica procura justamente não reduzir o sofrimento a uma propriedade interna e isolada do sujeito. Ao contrário, busca compreender como as dimensões psíquicas, relacionais, históricas e sociais se articulam na produção de uma experiência singular.
Isso pressupõe reconhecer também o conhecimento que a própria pessoa pode produzir sobre aquilo que vive, sem que sua experiência permaneça inteiramente subordinada a uma explicação previamente estabelecida.
O diagnóstico psiquiátrico pode, assim, constituir uma referência importante para o cuidado, mas não precisa determinar antecipadamente a identidade, as possibilidades e os caminhos de uma pessoa.
Afinal, compreender aquilo que alguém vive também implica reconhecer sua capacidade de produzir novos sentidos sobre si, suas relações e sua própria história.
Coelho, L., & Neves, T. (2023). Sofrimento psíquico no neoliberalismo e a dimensão política do diagnóstico em saúde mental. Saúde e Sociedade, 32(3), e220850pt. https://doi.org/10.1590/S0104-12902023220850pt
de Jesus, J. R., de Araujo Andrade, T., & de Figueiredo, E. C. (2023). Biomarkers in psychiatric disorders. Advances in Clinical Chemistry, 116, 183–208. https://doi.org/10.1016/bs.acc.2023.05.005
Freitas, C. D. R., & Reuter, B. (2021). Modos de subjetivação e discurso psiquiátrico: Implicação e repercussão do diagnóstico psiquiátrico na construção de identidade do sujeito. Saúde e Sociedade, 30(1), e200172. https://doi.org/10.1590/S0104-12902021200172
Hall, S. (2017). Quem precisa da identidade? In T. T. da Silva (Org.), Identidade e diferença: A perspectiva dos estudos culturais (15ª ed., pp. 103–133). Vozes.
Marinho, A. C. (2026). Saúde mental e desigualdade social: Um estudo sobre o pensar e o fazer de psicólogas que trabalham no SUS e no SUAS [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.47.2026.tde-20082026-060519
Moncrieff, J., Cooper, R. E., Stockmann, T., Amendola, S., Hengartner, M. P., & Horowitz, M. A. (2023). The serotonin theory of depression: A systematic umbrella review of the evidence. Molecular Psychiatry, 28, 3243–3256. https://doi.org/10.1038/s41380-022-01661-0
Signor, R. C. F., & Santana, A. P. O. (2020). A constituição da subjetividade na criança com diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, 15(2), 210–228. https://doi.org/10.1590/2176-457340739