Por Alexandre Ceconello Marinho • 23 de outubro de 2026
Receber um diagnóstico em saúde mental, sobretudo um diagnóstico psiquiátrico e/ou neuropsicológico, pode representar um acontecimento importante na vida de uma pessoa. Para alguns, encontrar uma explicação para aquilo que sentem produz alívio e reconhecimento. Para outros, pode despertar medo, insegurança, dúvidas sobre o futuro ou mesmo discordância em relação à condição que lhes foi atribuída.
Em ambos os casos, há uma questão que merece atenção: o que fazer com esse diagnóstico?
Afinal, receber uma classificação diagnóstica não significa, necessariamente, compreender aquilo que estamos vivendo. Entre a atribuição de um nome e a possibilidade de produzir conhecimento sobre a própria experiência, existe um processo que nem sempre acontece de maneira imediata.
Um primeiro movimento importante consiste em compreender o que determinado diagnóstico significa, quais manifestações levaram à sua atribuição e o que ele permite conhecer sobre a condição apresentada.
Nesse sentido, não há problema em perguntar ao profissional como chegou àquela conclusão, quais critérios foram considerados, que outras hipóteses foram investigadas e quais cuidados podem ser necessários.
É importante reconhecer que receber um diagnóstico não significa assumir uma posição passiva diante do conhecimento produzido pelo profissional.
Baremblitt (2002), ao discutir as relações entre saber especializado e produção de conhecimento, problematiza a maneira como os sujeitos podem ser afastados da compreensão de suas próprias experiências, tornando-se dependentes das explicações oferecidas por especialistas.
Essa reflexão nos ajuda a pensar uma questão fundamental para a clínica: o conhecimento técnico pode contribuir para compreender uma experiência sem necessariamente substituir o saber que a própria pessoa pode produzir sobre aquilo que vive.
Isso implica reconhecer o diagnóstico categorial como uma informação que pode ser interrogada, compreendida e relacionada à experiência, em vez de simplesmente recebida como uma explicação acabada.
Nem sempre a pessoa se reconhece plenamente na condição que lhe foi atribuída. Pode acontecer de determinadas manifestações fazerem sentido, enquanto outras parecem não corresponder àquilo que ela experimenta.
Essa situação não significa, necessariamente, que o diagnóstico esteja equivocado. Entretanto, pode indicar a necessidade de novos esclarecimentos, de acompanhamento da evolução clínica ou, quando pertinente, de uma reavaliação por profissional habilitado.
É importante distinguir questionar um diagnóstico de simplesmente rejeitá-lo.
Questionar pressupõe investigar seus fundamentos, compreender suas possibilidades e limites e considerar como ele se relaciona com aquilo que efetivamente se vive.
Como temos visto ao longo dessa série de artigos, o diagnóstico psiquiátrico pode produzir efeitos importantes sobre a maneira como as pessoas compreendem a si mesmas e são percebidas em suas relações sociais. Isso evidencia que sua repercussão não se restringe à identificação de uma condição clínica (Freitas & Reuter, 2021).
Portanto, mesmo quando um diagnóstico classificatório se mostra adequado, permanece importante proceder ao diagnóstico compreensivo, ou seja, buscar compreender os sentidos que essa nomeação assume na experiência daquele que a recebeu.
Outro aspecto fundamental diz respeito às possibilidades de tratamento.
Dependendo da condição apresentada, o cuidado pode envolver acompanhamento médico, psicoterapia, utilização de medicamentos e outras intervenções. Essas modalidades não precisam ser compreendidas como alternativas excludentes.
Entretanto, participar do próprio tratamento não deveria significar apenas cumprir orientações previamente estabelecidas (Gonçalves & Onocko Campos, 2017).
Isso não significa que o conhecimento técnico e a indicação profissional deixem de ser necessários. Significa reconhecer que a pessoa também precisa compreender as intervenções propostas e participar, dentro das possibilidades, das decisões que afetam sua vida.
No caso dos medicamentos, por exemplo, é importante esclarecer com o profissional responsável sua finalidade, os benefícios esperados, os possíveis efeitos adversos e a necessidade de acompanhamento. Eventuais mudanças ou interrupções devem ser discutidas com o prescritor, e não realizadas por conta própria.
O mesmo princípio pode orientar a psicoterapia: o tratamento não precisa ser conduzido como uma sequência de prescrições sobre como alguém deve sentir, pensar ou agir, mas como um processo no qual o sujeito participa da investigação e da elaboração de suas próprias questões, trata-se, como temos explicado, de favorecer o diagnóstico compreensivo.
Uma pessoa pode chegar à psicoterapia com um diagnóstico previamente estabelecido, suspeitando de determinada condição ou procurando compreender experiências que ainda não conseguiu nomear.
Em uma perspectiva psicossocial de base psicanalítica, o diagnóstico pode integrar o trabalho clínico, mas não precisa determinar previamente tudo aquilo que será investigado.
Interessa compreender como determinadas manifestações aparecem, quando começaram, quais relações estabelecem com a história do sujeito, com seus vínculos, conflitos e condições de existência.
Também podemos investigar o próprio significado do diagnóstico recebido: o que ele ajudou a compreender? O que permanece sem explicação? Que sentimentos produziu? Como modificou a maneira de perceber a si mesmo e de se relacionar com outras pessoas?
Como aponta Bleger (2002), a própria situação de atendimento psicológico deve ser entendida como um campo de investigação. Ou seja: o conhecimento clínico não deve se limitar à coleta de informações previamente definidas, mas deve ser construído também na relação entre profissional e sujeito, permitindo formular e revisar hipóteses ao longo do processo.
Em minha pesquisa de doutorado, essa questão também aparece associada aos limites de intervenções voltadas exclusivamente ao controle de sintomas e comportamentos. Uma das psicólogas entrevistadas sintetiza uma dimensão importante do trabalho clínico ao afirmar que podemos ajudar alguém a “elaborar aquela dor, mas a pessoa não vai esquecer o que ela viveu” (Marinho, 2026, p. 140).
Essa distinção é fundamental.
A psicoterapia não deve prometer eliminar toda experiência de sofrimento, tampouco se limitar à adaptação do sujeito a determinadas expectativas de normalidade. Ela pode contribuir para que experiências, conflitos e modos de relação sejam compreendidos, elaborados e, quando possível, transformados.
Afinal, talvez uma das contribuições mais importantes da psicoterapia seja justamente possibilitar que o sujeito não permaneça apenas como destinatário de um conhecimento sobre si, mas participe ativamente de sua construção.
Baremblitt, G. F. (2002). Compêndio de análise institucional e outras correntes: Teoria e prática (5ª ed.). Instituto Felix Guattari.
Bleger, J. (2002). Temas de psicología: Entrevista y grupos (30ª reimpr.). Nueva Visión.
Freitas, C. D. R., & Reuter, B. (2021). Modos de subjetivação e discurso psiquiátrico: Implicação e repercussão do diagnóstico psiquiátrico na construção de identidade do sujeito. Saúde e Sociedade, 30(1), e200172. https://doi.org/10.1590/S0104-12902021200172
Gonçalves, L. L. M., & Onocko Campos, R. T. (2017). Narrativas de usuários de saúde mental em uma experiência de gestão autônoma de medicação. Cadernos de Saúde Pública, 33(11), e00166216. https://doi.org/10.1590/0102-311X00166216
Marinho, A. C. (2026). Saúde mental e desigualdade social: Um estudo sobre o pensar e o fazer de psicólogas que trabalham no SUS e no SUAS [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.47.2026.tde-20082026-060519