Por Alexandre Ceconello Marinho • 12 de outubro de 2026
Tristeza, ansiedade, medo, angústia, irritabilidade, desânimo e dificuldades de concentração são exemplos de experiências que fazem parte da vida humana. Entretanto, em uma sociedade na qual a linguagem dos diagnósticos psiquiátricos se tornou cada vez mais presente, essas manifestações frequentemente passam a ser associadas à possibilidade de algum transtorno mental.
Isso nos coloca diante de uma questão importante: todo sofrimento psíquico deve ser compreendido como manifestação de uma doença ou transtorno mental?
Embora determinados sofrimentos possam estar relacionados a condições clínicas que exigem cuidados específicos e sua identificação como transtorno possa favorecer aspectos do seu tratamento, também precisamos reconhecer que as experiências humanas se constituem em determinadas condições históricas, culturais e sociais. Nesse sentido, nem tudo aquilo que produz sofrimento corresponde, necessariamente, a uma patologia.
O sofrimento psíquico não é, por si só, uma condição patológica. Ele pode estar relacionado a perdas, conflitos, frustrações, dificuldades afetivas, experiências de violência e outras situações que atravessam a existência humana.
Isso não significa que essas experiências sejam sempre passageiras ou que não possam desencadear processos de adoecimento. Significa que reconhecer o sofrimento não implica, necessariamente, atribuir-lhe uma categoria diagnóstica.
Essa distinção nos conduz a uma questão anterior: afinal, o que consideramos normal ou patológico?
Canguilhem (2022) questiona a compreensão da normalidade como simples correspondência a médias ou padrões previamente estabelecidos. Por isso, o patológico não pode ser definido apenas pela presença de diferenças ou variações em relação àquilo que é considerado normal. É necessário compreender as possibilidades e limitações da vida em suas condições concretas.
Essa reflexão é importante porque os critérios pelos quais determinados sentimentos e comportamentos são considerados normais ou inadequados não são inteiramente independentes dos valores e expectativas de cada sociedade.
Aquilo que em determinado contexto é reconhecido como uma forma legítima de expressão pode, em outro, ser interpretado como comportamento desviante ou manifestação de uma doença.
É nesse processo que podemos reconhecer aquilo que chamamos de patologização: a tendência de interpretar comportamentos, sentimentos e experiências humanas a partir de uma linguagem que os identifica como manifestações de doenças ou transtornos.
Angel e Amaral (2023), ao discutirem a expansão do diagnóstico psiquiátrico na contemporaneidade, problematizam como determinadas classificações participam da produção de padrões de normalidade que passam a orientar comportamentos, relações e modos de viver.
O pensamento medicalizado contribui para estabelecer uma distinção entre normalidade e patologia, produzindo um sistema de “normação dos comportamentos, das existências, dos trabalhos e dos afetos” (Angel & Amaral, 2023, p. 10).
Essa questão torna-se particularmente relevante quando determinadas manifestações são avaliadas predominantemente por sua adequação às expectativas sociais.
Uma pessoa constantemente cansada, com dificuldades de concentração ou que não consegue corresponder às exigências de produtividade, por exemplo, pode passar a ser interpretada como alguém que apresenta um funcionamento inadequado, sem que sejam suficientemente consideradas suas condições de trabalho, suas relações passadas e presentes e as exigências às quais está submetida.
O problema não está em investigar a possibilidade de um transtorno mental, mas em transformar diferenças, conflitos e dificuldades da vida em manifestações patológicas sem compreender as condições nas quais se produzem.
A patologização está frequentemente relacionada a outro processo: a medicalização.
Monteiro-Garcia et al. (2024), ao discutirem esse conceito, mostram que a medicalização corresponde à transformação de experiências e problemas anteriormente compreendidos em outros campos da vida em questões interpretadas e administradas predominantemente pelo conhecimento e pelas intervenções médicas.
Portanto, medicalizar não significa simplesmente utilizar medicamentos. Trata-se de um processo mais amplo, pelo qual experiências humanas passam a ser traduzidas prioritariamente na linguagem da doença, do diagnóstico categorial e do tratamento prescritivo.
Nesse movimento, dificuldades que envolvem relações familiares, condições de trabalho, desigualdades e conflitos sociais podem ser compreendidas como problemas localizados no funcionamento individual.
Alvarenga e Dias (2021), ao analisarem o consumo de psicofármacos na sociedade contemporânea, identificam relações entre medicalização, exigências de produtividade e a utilização de medicamentos tanto para ampliar o desempenho quanto para suportar condições de vida produtoras de sofrimento.
Isso revela uma contradição importante: em vez de questionarmos determinadas condições que produzem sofrimento, podemos passar a exigir que os indivíduos se modifiquem para continuar suportando-as.
Em minha tese de doutorado, discuto como determinadas experiências de sofrimento são frequentemente individualizadas, fazendo com que suas relações com a desigualdade, a violência, o trabalho e outras condições de existência sejam desconsideradas ou colocadas em segundo plano (Marinho, 2026).
Esse processo está relacionado à tendência de compreender sentimentos e comportamentos como manifestações exclusivamente internas do sujeito, desconsiderando as relações históricas e sociais que participam de sua constituição.
Sawaia (2001), ao desenvolver o conceito de sofrimento ético-político, oferece uma importante contribuição para essa discussão. A autora procura compreender formas de sofrimento relacionadas às experiências de desigualdade, humilhação, exclusão e injustiça social, demonstrando que a dimensão afetiva não pode ser separada das condições sociais nas quais é produzida.
Coelho e Neves (2023) aprofundam essa problemática ao discutir como a racionalidade neoliberal favorece uma compreensão individualizante do sofrimento, atribuindo às pessoas a responsabilidade pela administração de suas dificuldades, independentemente das condições sociais que participam de sua produção.
Nesse contexto, o indivíduo é constantemente convocado a melhorar seu desempenho, controlar suas emoções, desenvolver resiliência e adaptar-se às exigências de uma realidade que nem sempre oferece condições para uma vida digna.
Consequentemente, o sofrimento produzido por essas contradições pode ser interpretado como uma deficiência individual de adaptação.
Não se trata, entretanto, de afirmar que todo sofrimento seja determinado exclusivamente pelas condições sociais. Isso representaria substituir um reducionismo por outro. Trata-se de reconhecer que a experiência psíquica é singular, mas não pode ser compreendida independentemente das relações e das condições concretas em que se constitui (Marinho, 2026).
Não. Essa é uma distinção fundamental.
Existem condições clínicas que exigem acompanhamento especializado e para as quais os medicamentos podem representar recursos importantes. O sofrimento produzido em determinadas circunstâncias sociais também pode alcançar intensidade e persistência suficientes para configurar um transtorno mental.
Portanto, reconhecer a participação das condições sociais no sofrimento não significa negar suas dimensões biológicas ou a necessidade de outros tratamentos, inclusive medicamentosos.
A crítica à medicalização está justamente na possibilidade de reduzir a compreensão e o cuidado à identificação de uma doença e à intervenção sobre o indivíduo, como se essas operações fossem suficientes para responder à complexidade da experiência humana.
Nesse sentido, não precisamos escolher entre reconhecer o adoecimento ou reconhecer suas determinações sociais. As duas dimensões podem e devem participar de uma investigação clínica.
Uma perspectiva psicossocial de base psicanalítica procura compreender o sofrimento sem pressupor que sua origem esteja exclusivamente no funcionamento interno da pessoa.
Isso implica investigar seus sintomas, afetos, conflitos e relações, tendo como cenário as condições nas quais sua experiência se constitui.
A psicoterapia não tem como finalidade simplesmente eliminar manifestações consideradas inadequadas ou adaptar o sujeito às exigências de seu meio. Ela pode constituir um espaço para compreender criticamente essas exigências, reconhecer conflitos, elaborar experiências e construir outras possibilidades de relação consigo e com o mundo.
Assim, nem todo sofrimento precisa receber o nome de um transtorno para ser reconhecido como legítimo ou merecedor de cuidado.
Afinal, compreender aquilo que alguém vive pode exigir não apenas investigar o que acontece com essa pessoa, mas também perguntar o que acontece nas relações e no mundo em que ela vive.
Alvarenga, R., & Dias, M. K. (2021). Epidemia de drogas psiquiátricas: Tipologias de uso na sociedade do cansaço. Psicologia & Sociedade, 33, e235950. https://doi.org/10.1590/1807-0310/2021v33235950
Angel, C. de O., & Amaral, A. J. do. (2023). O poder (neuro)psiquiátrico: A psicopatologização do cotidiano na era do cérebro. Psicologia & Sociedade, 35, e262853. https://doi.org/10.1590/1807-0310/2023v35262853
Canguilhem, G. (2022). O normal e o patológico (M. T. R. C. Barrocas, Trad.; 7ª ed.). Forense.
Coelho, L., & Neves, T. (2023). Sofrimento psíquico no neoliberalismo e a dimensão política do diagnóstico em saúde mental. Saúde e Sociedade, 32(3), e220850pt. https://doi.org/10.1590/S0104-12902023220850pt
Marinho, A. C. (2026). Saúde mental e desigualdade social: Um estudo sobre o pensar e o fazer de psicólogas que trabalham no SUS e no SUAS [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.47.2026.tde-20082026-060519
Monteiro-Garcia, R., Lemos-Paiva, I., & Alberto, M. F. P. (2024). Medicalização da vida: Um panorama conceitual. Cultura y Droga, 29(38), 281–297. https://doi.org/10.17151/culdr.2024.29.38.12
Sawaia, B. B. (2001). O sofrimento ético-político como categoria de análise da dialética exclusão/inclusão. In B. B. Sawaia (Org.), As artimanhas da exclusão: Análise psicossocial e ética da desigualdade social (2ª ed., pp. 97–118). Vozes.